Cabeça de um Tigre no corpo de um pássaro

Sou um impostor ? Estou alucinando no trabalho ?

Em Carreira, Gestão Ágil por Jonathan Maia

Beira mar de Fortaleza, um lindo dia de sol, entro no elevador de um dos melhores hotéis da bela orla marítima e só tenho boas lembranças: foi aqui onde passei uma parte da minha lua de mel. Animado, motivado e com aquela ansiedade boa, que nos energiza e prepara, vou palestrar sobre um tema que me fascina: a transformação do serviço público através da gestão ágil, moderna e enxuta!

Imerso neste assunto em meu ambiente de trabalho, já tendo ministrado algumas turmas sobre o tema, contando com mais de mil alunos capacitados (online e presencial), sinto-me “confortável” em compartilhar o que aprendi sobre gestão ágil nos últimos anos, incluindo os fracassos e sucessos.

Beira Mar - Fortaleza - Créditos ricardor - Wikimedia

Beira Mar – Fortaleza – Créditos ricardor – Wikimedia

Na plateia, composta por algumas dezenas de diretores e líderes (vários com muitos anos de experiência a mais que eu), encontro vários amigos, parceiros e alunos de cursos anteriores. O clima está descontraído, e assim iniciamos nosso tempo juntos!

Passados alguns minutos, algo chama minha atenção. Uma pessoa constantemente balançando a cabeça negativamente e com um semblante fechado. Sempre que falo sobre gestão ágil, inicio deixando claro que mudanças de paradigmas ou de mindset (palavra da moda) enfrentarão resistências: o ser humano é assim, a inércia tende a nos manter em comodidade.

As nuvens

Durante a primeira metade da palestra, meu celular vibra no bolso repetidas vezes: em uma rápida olhada, é a minha esposa. Ela sabe que eu estaria aqui, e não me interromperia por pouca coisa. Celular vibrando no bolso, uma pessoa meneando a cabeça em desaprovação ao que estou falando, e assim chegamos ao intervalo.

FERR

Ligo para minha esposa e descubro que meu filho (um ano e meio de idade) está passando muito mal: estão a caminho da emergência. E agora ? Com mais duas horas de palestra pela frente, bate aquela impotência: o que fazer ?

Alguém chega para conversar no intervalo e diz: “tudo isso que você está falando é muito interessante, mas dificilmente funcionará na nossa realidade!”

Já estou acostumado com tal argumento, e apresento alguns exemplos práticos de sucesso em realidades similares, mas lá no fundo começo a me perguntar: será que estou falando em vão ?

E assim retomo a segunda metade da palestra.  Enquanto o conteúdo é transmitido, me pego pensando em meu filho no hospital, e a primeira pessoa que citei permanece balançando a cabeça, persistentemente com um semblante sério.

E a palestra que iniciou  em um lindo dia de sol agora era vista de um óculos anuviado, nublado! Continuei com o conteúdo planejado, buscando manter o foco, e tivemos excelentes debates sobre o que era possível incorporar da gestão ágil e enxuta no dia a dia. Ao final, recebi alguns feedbacks positivos dos presentes, mas fiquei com algumas perguntas martelando minha cabeça:

Será que estou realmente pronto para compartilhar conhecimentos sobre este assunto ? Será que devo me aprofundar mais ? Fazer mais cursos e certificações antes de uma próxima iniciativa ? Estou realmente preparado para ministrar cursos e palestras ? Estou enganando pessoas ? Sou um profissional impostor?

Homem com as mãos no rosto.

Sou um profissional impostor ?

A alucinação

O tempo passou, e quase um mês após a palestra, período no qual refleti bastante sobre os questionamentos acima, recebi um e-mail de uma pessoa que participou do evento. Já com algumas perguntas mais avançadas sobre os conteúdos que abordei naquele dia, relatou que a gestão ágil e as ferramentas apresentadas conquistaram toda sua equipe de trabalho, ou time, como prefiro falar, e que tomos estavam muito empolgados!

Mas eu não conseguia lembrar do rosto da pessoa que me encaminhou tal e-mail!

No mesmo dia, coincidentemente, um amigo em comum marcou o remetente do e-mail em uma foto no Facebook. Era a pessoa que meneava a cabeça negativamente no dia da palestra! Surpresa total! Como assim ? Mas não estava detestando a palestra ?

Imediatamente, lembrei de um conceito que aprendi em um custo de desenvolvimento gerencial: A alucinação.

Não estou falando de ver coisas, objetos ou pessoas que não existem. A alucinação, neste caso, ocorre quando interpretamos erroneamente pessoas, gestos ou comportamentos.

Na palestra, fiz uma leitura completamente equivocada das expressões corporais de uma pessoa que eu pouco conhecia, criei uma alucinação mental de que o conteúdo apresentado não estava agradando-a.

Você já se viu em uma situação similar? Inferindo e supondo verdades com base indícios completamente frágeis ? Criando alucinações, fantasias ou inverdades infundadas ? E o pior, baseando suas ações em tais alucinações ? Foi exatamente o que fiz, talvez pelo conjunto de fatores do momento.

Algum tempo atrás ouvi o relato de um profissional da saúde mental que passou por uma situação similar à minha, mesmo conhecendo a fundo a mente humana. Ministrando uma palestra, havia um senhor na plateia com o semblante muito fechado, aparentemente com raiva, chegando ao ponto em que o profissional precisou parar de olhar para o “raivoso” para conseguir prosseguir com a palestra.

Auditório

Até profissionais treinados podem ter alucinações em suas profissões

Ao final, surpresa total. O homem, em uma conversa particular, começou a chorar relatando o quanto havia sido intimamente impactado pela palestra. A “raiva”, na verdade, era introspecção profunda. Para você ver como mesmo profissionais treinados podem ceder às alucinações mentais.

A síndrome do impostor
Você já ouviu falar sobre a síndrome do impostor ? Dá uma olhada na definição da Wikipédia:
“A síndrome do impostor, fenômeno do impostor ou síndrome da fraude, tem sido o assunto principal de vários livros e ensaios por psicólogos e educadores. As pessoas que sofrem este tipo de síndrome, de forma permanente, temporária ou frequente, parecem incapazes de internalizar os seus feitos na vida. Não importando o nível de sucesso alcançado em sua área de estudo ou trabalho, ou quaisquer que sejam as provas externas de suas competências, essas pessoas permanecem convencidas de que não merecem o sucesso alcançado e que de fato são nada menos do que fraudes. As provas de sucesso são desmerecidas como resultado de simples sorte, ter estado no lugar certo na hora certa, ou se não por ter enganado as outras pessoas fazendo-as acreditar que são mais inteligentes do que o são em realidade.”

Naquele momento, logo após a palestra que ministrei, os questionamento que fiz estavam diretamente ligados aos efeitos de uma ocorrência da síndrome do impostor, que pode ter sido desencadeada por toda a situação que se montou (meu filho no hospital, pessoa balançando a cabeça negativamente e conversa negativa no intervalo).

Ocorrências permanentes, temporárias ou frequentes da síndrome do impostor são recorrente em professores, pesquisadores ou líderes, que precisam continuamente transmitir ou desafiar seus próprios conhecimentos. Incrível como nós seres humanos somos parecidos, não é ? Em maior ou menor intensidade, cada um de nós tem ou já teve momentos em que a síndrome do impostor ocorreu, e cada um de nós responde a tais momentos de uma maneira diferente.

Impostor

Síndrome do Impostor

Enfrentando a síndrome do impostor e as alucinações

Tá, mas como enfrentar as possíveis ocorrências da síndrome do impostor e das alucinações ?

O primeiro caminho é identificá-las rapidamente. Quando a pessoa que eu acreditava não ter gostado da palestra entrou em contato comigo, detectei tardiamente que havia interpretado-a erroneamente. E se no momento da palestra eu já tivesse identificado que minha interpretação poderia estar completamente incorreta e infundada ? Facilitaria bastante minha forma de encarar a situação.

Uma segunda forma é como o profissional de saúde mental que relatei atuou no momento da palestra: se está incomodando, desvie o foco, ainda que momentaneamente, e lembre de suas experiências positivas para enfrentar o momento! Já pensou, afetar negativamente uma palestra ou um curso por causa de uma alucinação ? Seria uma tragédia.

Vi uma frase muito legal há alguns dias de um palestrante do TED Talks: “Mesmo com medo, vai lá e faz!” Como humanos que somos, todos temos nossos momentos de insegurança, fragilidade e medo, o que é completamente normal. O problema é quando esses sentimentos nos fazem parar!

Uma leitura extremamente recomendada para professores e instrutores é o excelente Ted Talks. O Guia Oficial do Ted Para Falar em Público:

Livro Ted Talks. O Guia Oficial do Ted Para Falar em Público:

Livro Ted Talks. O Guia Oficial do Ted Para Falar em Público:

Uma terceira maneira é não ignorar as reflexões que surgem após uma ocorrência da síndrome do impostor: ainda que difíceis, elas podem promover nossa melhoria contínua. Os questionamentos que fazemos sobre nós mesmos, ainda que por vezes exagerados, são valiosos momentos para avaliarmos nossos conhecimentos de maneira objetiva, racional e transparente:
Onde podemos investir para melhorar como profissionais ? Como podemos evoluir ? O grande segredo é colocar a razão em nossas reflexões, não deixando as emoções dominarem o processo.

O quarto caminho é ter a consciência que sempre temos algo a compartilhar, ainda que como iniciantes. Em 2005, no meu segundo ano de faculdade, escrevi um artigo para o site Viva o Linux falando despretensiosamente sobre LDAP. Esqueci completamente desse artigo e algum tempo atrás descobri que ele já tem quase meio milhão de visualizações. MEIO MILHÃO!

Compartilhei um pouco daquilo que estava aprendendo e olha a quantidade de colegas que pude ajudar. É uma grande honra (com exceção da foto abaixo)!

Ldap

Desconsiderar a foto! Rsrs

Uma quinta estratégia é se colocar em situações que te desafiem e encarar a insegurança. Escreva em um Blog, crie um canal no Youtube, facilite grupos, ministre cursos e palestras, participe efetivamente de grupos profissionais, enfim, não deixe o sentimento de inadequação lhe dominar, enfrente-o ciente que ninguém sabe de tudo, todos temos algo a aprender, até mesmo aqueles que se colocam em pedestais, como “gurus do conhecimento moderno”.

Até aqui, não falei de um fenômeno oposto à síndrome do impostor, o Efeito Dunning-Kruger:

O efeito Dunning-Kruger é o fenômeno pelo qual indivíduos que possuem pouco conhecimento sobre um assunto acreditam saber mais que outros mais bem preparados, fazendo com que tomem decisões erradas e cheguem a resultados indevidos; é a sua incompetência que os restringe da habilidade de reconhecer os próprios erros. Estas pessoas sofrem de superioridade ilusória.

Algumas pessoas, como mecanismo de fuga para a síndrome do impostor, desenvolvem o Efeito Dunning-Kruger, e é aqui onde localizamos sujeitos difíceis de lidar, que “vomitam regras”, sempre com a razão e incapazes de reconhecer seus erros, ainda que não dominem uma área com profundidade. Esse é um outro extremo a evitar.

Efeito Dunning-Kruger: superioridade ilusória!

Efeito Dunning-Kruger: superioridade ilusória!

Aprofundando

Se você quer conhecer um pouco mais sobre a Síndrome do Impostor e sobre o Efeito Dunning-Kruger, assista essa excelente palestra da Campus Party 2018 ministrada pelo Marco Antônio Júnior (Somatório) e pelo Fernando Ike. O conteúdo começa em 02:40. Você pode acessar os slides aqui.

Conclusão

Conheço pessoas extremamente capacitadas que pela síndrome do impostor limitam-se profissionalmente e deixam de impactar positivamente as pessoas ao seu redor.

Naturalmente, temos medo de errar e sermos julgados como profissionais. Eu já errei aqui no Blog Eu na TI. Em uma de minhas postagens, utilizei um termo impreciso e fui prontamente repreendido, de maneira até dura. Meu questionamento na hora: Devo continuar escrevendo ? Minha resposta racional:

Só não erra quem não faz!

E é por isso que eu reforço: compartilhe seus conhecimentos com as pessoas ao seu redor! Não deixe a insegurança limitá-lo!

Mas Jonathan, por que você está falando sobre este tema em um Blog de TI ?

Porque os efeitos que aqui relatei são extremamente comuns na área de Tecnologia: nossas formações de nível superior são extremamente técnicas, e em boa parte dos cursos não somos ensinados a lidar com sentimentos ou pessoas, entretanto, também somos humanos.

Embora nem sempre pareça, não somos Robôs!

Embora nem sempre pareça, não somos Robôs!

Se você é um gestor, busque identificar as pessoas no seu time que têm ocorrências mais frequentes dos fenômenos aqui citados e compartilhe esse texto.

Rotineiramente escrevendo sobre aspectos mais técnicos de Gestão Ágil e DevOps, posso dizer que saí da minha zona de conforto escrevendo sobre esse assunto. Espero que você tenha gostado!

Agradeço se você puder curtir e compartilhar esse artigo em suas redes sociais. Deixe suas impressões e experiências nos comentários logo abaixo!

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Um forte abraço e até mais.

Olá, sou Jonathan Maia, marido, pai, apaixonado por tecnologia, gestão e produtividade. Atuo na gestão e desenvolvimento de sistemas de informação como Diretor da Divisão de Sistemas de TIC do TRT Ceará (servidor público federal).

Possuo as certificações em gerenciamento de projetos Project Management Professional (PMP) e Professional Scrum Master I (PSM I), Professional Scrum Product Owner I (PSPO I), Scrum Fundamentals Certified (SFC), além de especialização em gerenciamento de projetos de TI (2011) e bacharelado em ciências da computação pela UFC (2008). Também sou desenvolvedor Full Stack e possuo experiência em diversas arquiteturas / plataformas.

Fui aprovado e nomeado nos concursos públicos do TJ-CE, Dataprev, Serpro e TRT Ceará, assumindo nos três últimos. Já tive experiências profissionais em redes metropolitanas de alta velocidade (GigaFOR/RNP), business intelligence, desenvolvimento de sistemas e gestão de projetos (tradicionais e ágeis).

Como adepto da gestão ágil, desenvolvi o Organizador Ágil, um método ágil, simples e leve que auxilia no aumento da produtividade e organização pessoal, familiar ou profissional. Também mantenho o Blog Eu na TI.

Comentários

  1. Um dos melhores textos que eu já li até hoje vindo de um profissional técnico que não estava relacionado com TI.

    Muito obrigado por compartilhar suas ideias aqui no blog.

    Grande abraço!

    Rainier
    TRT3-MG

  2. Texto de enorme valor e emanando profunda lucidez e admirável autocrítica! Essas alucinações são bem “reais” mesmo, pois nossas percepções são muito influenciadas por aspectos mutantes e por nossas emoções. E reconfortante ler sobre a experiência de um palestrante reconhecido e experiente como você e com tamanha humildade frente às nossas frágeis certezas.

  3. Passei 40 anos duvidando da minha própria capacidade e me achando um impostor com sorte, mas sempre segui em frente. Isso me atormenta até os dias de hoje, mesmo com o feedback positivo das empresas e pessoas com quem trabalhei.

  4. Jonathan, forte e profunda a reflexão sobre o tema, a dissertação de sua tese é perfeita! Eu… me formei no último semestre e portanto estou meio que vagando, gostaria até de um feedback seu sobre o que fazer, após uma graduação. Área que me identifico mais é gestão, liderar até porque me formei na cadeira de sistemsi da informação, queria abrangir mais, me tornar um generalista, porém, tenho medo de se perder… perde o foco para onde eu quero rir e estar realmente.

    1. Autor

      Olá, Júlio. Tudo bem ? Obrigado pelas palavras. Olha só, no mercado atual, é excelente ser um generalista tendo algumas especialidades. Então, inicialmente, foca em uma especialidade, e daqui a alguns anos, se desejar ampliar teu leque, muda tua área de atuação. Fiz isso algumas vezes, trabalhei com infraestrutura por 5 anos, depois com BI por 1 ano, depois com desenvolvimento de sistemas por 6 anos, e agora focando em gestão de TI e DevOps há uns 2-3 anos. Mas inicialmente, é bom sim ter uma especialidade. Um forte abraço!

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